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note to myselfDecember 31, 2005 8:48 pm

os sms’s não vêm assinados. ou não reconheço o número ou o nome sob o qual está pode pertencer a várias pessoas com quem tenho graus de relacionamento absolutamente díspares. que fazer?

[que raio de moda esta, as dos sms’s, por estas alturas]

yesterday was dramatic, today is ok 12:48 am

Sentia os olhos pesados. A luz do monitor começava a exigir-lhe descanso. Não conseguia sair dali. Já tinha acabado todo o trabalho, mas continuava estático a olhar o ícone do cliente de mensagens instantâneas. Aquele ícone representava-a, agora. Agora, ela era apenas aquele ícone.
Sabia que aquele ícone não ía piscar, anunciando uma mensagem em tempo real. Ela não faria isso. E, no entanto, havia uma esperança, uma esperança sem esperança, dentro dele.
Era ainda uma esperança não assumida: qundo o ícone de um amigo piscou e ele leu “a trabalhar?”, respondeu que sim e não deu azo a mais conversa.
Mas para ele mesmo já não fingia. Não percorria os sites de notícias, nem os blogs, nem os motores de pesquisa, a fazer tempo… tempo de quê?
Não. Agora ele só olhava o ícone com o nome dela à frente.
Ela estava online e sem nenhuma mensagem. Apenas online.
Depois de tudo acontecer, só falava com ela através do cliente de mensagens instantâneas. Ultimamente, nem isso.
Não havia um pretexto suficientemente bom para iniciar uma conversa - e quereria ele arriscar-se a ter uma conversa com ela? Ah, se fosse para lhe sentir as palavras, uma palavra só que fosse, ele suportaria a dor depois.
Já não se lembrava porque tinham deixado de falar.
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Mentira. Lembrava-se perfeitamente. Tinham deixado de falar para deixarem de se magoar. Sim, tinha sido por isso.
Chegara um tempo em que a dor se tornara insuportável. No início, tudo tinha acontecido muito rapidamente, naturalmente rápido. Tinham morado no corpo um do outro durante muito tempo. Tanto tempo que conseguiam prever as reacções do corpo do outro com mais exactidão do que as do seus próprios.
Deu por si a pensar que talvez fosse por isso, por conhecer o corpo dela, melhor do que o seu próprio, que a dor, agora, se sentia tanto.
“É tão difícil conhecer algo, que acabamos por tornar nosso aquilo que conseguimos conhecer” - lembrava-se de ter lido isto algures e pensava agora que era bem capaz de ser verdade. Tinha-a tornado dele. Sentia-a tanto dele como se sentia dela.
“Custa-nos muito largar aquilo que conseguimos com muito esforço” - decididamente não conseguia controlar os flashes das frases que lera por aí…
E tinha sido assim. Tinha havido esforço de parte a parte. Ele tinha-se esforçado para se adaptar a ela e ela tinha feito um esforço para se adaptar a ele.
Porque quando a diferença vem temperada com amor… interrompeu-se…. amor?! Chamou-lhe amor agora, assim, sem pensar, pela primeira vez. Seria amor, O amor? Num segundo conseguiu sentir cada momento do passado, mas não se sentiu capaz de aferir do amor.
Os outros ícones do cliente de mensagens instantâneas começavam a piscar, o mesmo é dizer que começavam a exigir-lhe uma atenção, que ele não queria dar.
“Do you really want to logout?”
Yes
Quando ela acabou de escrever a palavra “Yes”, no pequeno caderno, alongou o olhar pelo espaço do café em volta e alguém virou para ela um bloco de desenho A3, onde ela se reconheceu no papel.
O chapéu rosa, anos 20, as mangas da shirt a saírem da camisola lilás, os lábios vermelhos, a caneta na mão e o olhar, o olhar naquele em quem tinha morado tanto tempo.

musicDecember 30, 2005 4:17 pm

Yesterday was dramatic - Today is ok

múm

generalDecember 28, 2005 9:40 pm

Tenho andado doente e com algum trabalho, é por isso que ainda falta rechear esta casa com uma série de coisas, nomeadamente moradas para outras casas.
Este post serve apenas para vos chamar a atenção para as actualizações na Casa dos textos passados a limpo, que já lá estão há muito tempo.
Desta feita, é poesia. Não tem indicações de como a ler. Eu leio-a com muitas pausas.
E aproveito para voltar a dizer que lá mais para baixo há contos. Que eu gosto da poesia, mas os contos desta casa, ah os contos desta casa!

note to myself 9:08 pm

Sempre que venho ao Porto acontecem-me coisas estranhas. Na rua pergunto a uma senhora, as horas. A senhora arregaça a manga e eu vejo o relógio: é uma hora. Que terá isto de estranho? A pergunta que trouxe comigo: não é suposto as pessoas usarem o relógio virado para elas?

Eu vivi três meses no Porto e ainda assim esta cidade sabe como chocar-me.
Eu pensava que a Via Santa Catarina era uma rua, senhores! À minha frente tenho uma fachada de uma casa antiga, mas bem conservada ou restaurada. A fachada parece-se com as das câmaras municipais, austeras e sérias, mas lá dentro vejo luzes de várias cores, o que não me parece coerente, de modo que, instigada pela curiosidade, me decido a entrar.
E, senhores, o espanto: os meus ouvidos são bombardeados por uma música brasileira infernal, há luzes e luzinhas por todo o lado, lojas, gente aglomerada nos corredores.
Caríssimos, eu estou dentro de um centro comercial!!!!
Vagueio ao acaso, olho as montras e as pessoas, vou parando aqui e ali. Devo ter o espanto estampado na cara porque um rapaz perto de mim olha-me também ele admirado. Apanho-lhe o olhar e interrogo-o com o meu: qual é o problema? O que há de errado comigo? Ele acena e olha-me insistentemente a mão, a mão onde carrego os títulos do Camus, que acabei de comprar na Leitura. Admiração explicada, sorrimo-nos mutuamente e desaparecemos da visão um do outro.
De volta ao barulho, só tenho um objectivo, desaparecer daqui, sair rapidamente deste lugar. Onde fica a saída? Finalmente, mas atordoada, encontro-me no meio da rua, ainda com um zumbido nos ouvidos, sinto-me desorientada: não sei se devo subir ou descer a rua. Páro e tento pensar… para baixo, acho que é para baixo.
Preciso urgentemente de me sentar. Percorro apressadamente as ruas, mas os cafés estão apinhados de ruídos.
Há um café lá em baixo. Devo ter andado imenso porque tenho os pés e as pernas doridos e, reparo agora, estou muito longe do sítio para onde queria ir.
Mas aqui está-se bem.
É uma loja sui generis, chama-se Rei dos Queijos e mal se entra é um odor a queijo, capaz de fazer tremer o nariz do mais exímio apreciador, mas tem uma vantagem: depois de se passar o corredor do balcão entra-se numa sala meio escondida onde se pode tomar um calmo café.
Um pouco à semelhança daqueles bares que lá no fundo têm uma sala secreta de jogo, como se vê nos filmes.
As mesas são de madeira, não há janelas e as cadeiras, as cadeiras fazem lembrar as da casa da avó.

general 8:30 pm
Numa rua do Porto, pertinho da Estação de São Bento, à entrada de uma pastelaria está um Homem.
É preciso subir um degrau e dar dois passos para alcançar a porta da pastelaria.
O Homem mantêm um pé em cima do degrau e o outro em baixo, na calçada. Cada vez que alguém entra ou sai, o Homem inclina o corpo dorido para abrir a porta a quem entra e a quem sai.
A posição em que o Homem coloca o corpo deve doer-lhe porque de vez em quando massaja a perna que apoia na calçada. Às vezes sobe os dois pés para cima do degrau, mantendo as duas pernas ao mesmo nível, mas logo, logo sai de dentro da pastelaria um empregado a enxutá-lo para baixo.
Poucas pessoas lhe dão alguma coisa, muitas nem se apercebem que ele está ali, dobrando-se para lhes abrir a porta.
O que mais dói é a expressão daquela cara, de subserviência. De um Homem subserviente. Nenhum Homem deveria ter esta expressão. Nenhum de nós deveria deixar que um Homem pudesse ter esta expressão.
Passei o Natal debaixo dos cobertores, muito triste, mas muito quentinha. E não consigo deixar de pensar: como terá passado o Natal, aquele Homem?

Fez ontem um ano que escrevi este texto no “O Blog do Gustavo Felisberto”. Este homem, sem-abrigo de profissão abria, delicadamente, a porta às pessoas e esperava que as pessoas reconhecessem o gesto e o ajudassem.
Eu costumava tomar café numa pequena pastelaria quase em frente… quase em frente da Bella Roma, onde este homem abria a porta às pessoas.
Hoje fui ao Porto e sentei-me na mesma pequena pastelaria. Em frente vi que a Bella Roma tem agora portas automáticas.
Talvez as dores nas pernas daquele homem tenham melhorado…

generalDecember 27, 2005 12:01 am

note to myselfDecember 26, 2005 10:45 pm

Todos nós, de uma forma ou outra, formulamos juízos sobre o que acontece à nossa volta. Isto não nos coloca no lugar do juíz terrível que condena o réu, antes fornece uma frame que nos permite explicar e compreender o que acontece.
A explicação, a opinião ou a descrição que fazemos de determinada situação é, neste sentido, uma forma de organizarmos o mundo que nos rodeia.
Obviamente, estas explicações (em tempos imemoriais algo com funções semelhantes aos mitos) colidem muitas vezes com as explicações dadas pelos outros.
E é precisamente nesta colisão que surge essa questão que parece ser sumamente importante: ter razão.
Torna-se muito particular o sentimento de ter ou não razão:
Quem tem razão defendeu antes um ponto de vista. O ter razão pode ser assim um triunfo de quem vê ser-lhe dada a razão, como certificado de saber, de conhecimento.
Quem tem razão avisou antes para algo negativo, que veio a acontecer. O ter razão acaba por ser, neste caso, não mais do que um triunfo vil ante aquele que lhe não deu ouvidos.

Para além das situações em que é dada a razão a outrém, há ainda a questão da relação com esse outrém:
Se se tem uma relação de amizade com quem vem a demonstrar ter razão, em qualquer dos casos anteriores, o ter razão é aceite facilmente. No primeiro caso, com alegria - pois não me alegro ante o conhecimento demonstrado por quem me é próximo? -; no segundo, com resignação - pois não quererá o melhor para mim quem me é próximo e não deverei ouvi-lo numa próxima vez?

Se se não tem uma relação de amizade com quem vem a demonstrar ter razão e não se lhe reconhece moral para emitir um juízo, que ainda assim acaba por verificar-se, em qualquer dos casos anteriores, a conclusão de se ter de dar razão acaba por se tornar: no primeiro caso, ter de dar razão a alguém a quem não se reconhece conhecimento e portanto se acredita como tendo tido sorte; no segundo caso, ter de dar razão a agoiros propositados, por alguém a quem não se reconhece moral para o fazer.

Assim, dar razão a outrém e o sentimento que advém desse gesto depende, em grande medida, da relação que se tem com o outro, do conhecimento e da experiência que se reconhece no outro.

É por isso que, ao mesmo tempo e em relação a um mesmo assunto, se torna muito fácil dar razão a um amigo que admiramos e respeitamos e se torna quase impossível dar razão a quem não se integra nestas características.

Será a isto que chamam orgulho?

cinema 9:49 pm

Aqui não há coerência. Aqui atropela-se a lógica com prazer e na premiere espera-se atrás do ecrã, com pedras nos bolsos ante o receio de ser atacado pela audiência confusa :)

Não tivesse o guião sido escrito por esses dois grandes do surrelismo: Buñuel e Dali, este último com o papel de padre arrastado com o piano numa das cenas do filme.

15 minutos e 34 segundos de confuso deleite…

un_chien_andalou

blogsDecember 25, 2005 5:01 pm

Aproxima-se um novo ano e com ele surge uma nova casa.
Tenho o hábito de ir testando produtos que se assemelham. Gosto de perceber as semelhanças e as diferenças entre eles.
Depois de ter criado um blog no iUplog, cheguei à conclusão de, apesar de ter vantagens como uma secção de estatísticas e a possibilidade de construir álbuns de imagens, o problema do reconhecimento dos acentos, a impossibilidade de costumizar os posts, eliminando os sumários, o sistema de comentários que obriga à comunicação de um para um, o facto de não poder ter feeds nos comentários e a impossibilidade de sincronizar a hora do blog com a hora real do país onde escrevo torna o blog difícil de usar.
Encontrei, nas pesquisas que tenho feito, um host para blogs, Blogsome, que suporta wordpress, aplicação à qual já estava habituada, pelo que a partir de hoje e, pelo menos por enquanto, a casa vai ser esta :)