Todos nós, de uma forma ou outra, formulamos juízos sobre o que acontece à nossa volta. Isto não nos coloca no lugar do juíz terrível que condena o réu, antes fornece uma frame que nos permite explicar e compreender o que acontece.
A explicação, a opinião ou a descrição que fazemos de determinada situação é, neste sentido, uma forma de organizarmos o mundo que nos rodeia.
Obviamente, estas explicações (em tempos imemoriais algo com funções semelhantes aos mitos) colidem muitas vezes com as explicações dadas pelos outros.
E é precisamente nesta colisão que surge essa questão que parece ser sumamente importante: ter razão.
Torna-se muito particular o sentimento de ter ou não razão:
Quem tem razão defendeu antes um ponto de vista. O ter razão pode ser assim um triunfo de quem vê ser-lhe dada a razão, como certificado de saber, de conhecimento.
Quem tem razão avisou antes para algo negativo, que veio a acontecer. O ter razão acaba por ser, neste caso, não mais do que um triunfo vil ante aquele que lhe não deu ouvidos.

Para além das situações em que é dada a razão a outrém, há ainda a questão da relação com esse outrém:
Se se tem uma relação de amizade com quem vem a demonstrar ter razão, em qualquer dos casos anteriores, o ter razão é aceite facilmente. No primeiro caso, com alegria - pois não me alegro ante o conhecimento demonstrado por quem me é próximo? -; no segundo, com resignação - pois não quererá o melhor para mim quem me é próximo e não deverei ouvi-lo numa próxima vez?

Se se não tem uma relação de amizade com quem vem a demonstrar ter razão e não se lhe reconhece moral para emitir um juízo, que ainda assim acaba por verificar-se, em qualquer dos casos anteriores, a conclusão de se ter de dar razão acaba por se tornar: no primeiro caso, ter de dar razão a alguém a quem não se reconhece conhecimento e portanto se acredita como tendo tido sorte; no segundo caso, ter de dar razão a agoiros propositados, por alguém a quem não se reconhece moral para o fazer.

Assim, dar razão a outrém e o sentimento que advém desse gesto depende, em grande medida, da relação que se tem com o outro, do conhecimento e da experiência que se reconhece no outro.

É por isso que, ao mesmo tempo e em relação a um mesmo assunto, se torna muito fácil dar razão a um amigo que admiramos e respeitamos e se torna quase impossível dar razão a quem não se integra nestas características.

Será a isto que chamam orgulho?