Sempre que venho ao Porto acontecem-me coisas estranhas. Na rua pergunto a uma senhora, as horas. A senhora arregaça a manga e eu vejo o relógio: é uma hora. Que terá isto de estranho? A pergunta que trouxe comigo: não é suposto as pessoas usarem o relógio virado para elas?

Eu vivi três meses no Porto e ainda assim esta cidade sabe como chocar-me.
Eu pensava que a Via Santa Catarina era uma rua, senhores! À minha frente tenho uma fachada de uma casa antiga, mas bem conservada ou restaurada. A fachada parece-se com as das câmaras municipais, austeras e sérias, mas lá dentro vejo luzes de várias cores, o que não me parece coerente, de modo que, instigada pela curiosidade, me decido a entrar.
E, senhores, o espanto: os meus ouvidos são bombardeados por uma música brasileira infernal, há luzes e luzinhas por todo o lado, lojas, gente aglomerada nos corredores.
Caríssimos, eu estou dentro de um centro comercial!!!!
Vagueio ao acaso, olho as montras e as pessoas, vou parando aqui e ali. Devo ter o espanto estampado na cara porque um rapaz perto de mim olha-me também ele admirado. Apanho-lhe o olhar e interrogo-o com o meu: qual é o problema? O que há de errado comigo? Ele acena e olha-me insistentemente a mão, a mão onde carrego os títulos do Camus, que acabei de comprar na Leitura. Admiração explicada, sorrimo-nos mutuamente e desaparecemos da visão um do outro.
De volta ao barulho, só tenho um objectivo, desaparecer daqui, sair rapidamente deste lugar. Onde fica a saída? Finalmente, mas atordoada, encontro-me no meio da rua, ainda com um zumbido nos ouvidos, sinto-me desorientada: não sei se devo subir ou descer a rua. Páro e tento pensar… para baixo, acho que é para baixo.
Preciso urgentemente de me sentar. Percorro apressadamente as ruas, mas os cafés estão apinhados de ruídos.
Há um café lá em baixo. Devo ter andado imenso porque tenho os pés e as pernas doridos e, reparo agora, estou muito longe do sítio para onde queria ir.
Mas aqui está-se bem.
É uma loja sui generis, chama-se Rei dos Queijos e mal se entra é um odor a queijo, capaz de fazer tremer o nariz do mais exímio apreciador, mas tem uma vantagem: depois de se passar o corredor do balcão entra-se numa sala meio escondida onde se pode tomar um calmo café.
Um pouco à semelhança daqueles bares que lá no fundo têm uma sala secreta de jogo, como se vê nos filmes.
As mesas são de madeira, não há janelas e as cadeiras, as cadeiras fazem lembrar as da casa da avó.