Numa rua do Porto, pertinho da Estação de São Bento, à entrada de uma pastelaria está um Homem.
É preciso subir um degrau e dar dois passos para alcançar a porta da pastelaria.
O Homem mantêm um pé em cima do degrau e o outro em baixo, na calçada. Cada vez que alguém entra ou sai, o Homem inclina o corpo dorido para abrir a porta a quem entra e a quem sai.
A posição em que o Homem coloca o corpo deve doer-lhe porque de vez em quando massaja a perna que apoia na calçada. Às vezes sobe os dois pés para cima do degrau, mantendo as duas pernas ao mesmo nível, mas logo, logo sai de dentro da pastelaria um empregado a enxutá-lo para baixo.
Poucas pessoas lhe dão alguma coisa, muitas nem se apercebem que ele está ali, dobrando-se para lhes abrir a porta.
O que mais dói é a expressão daquela cara, de subserviência. De um Homem subserviente. Nenhum Homem deveria ter esta expressão. Nenhum de nós deveria deixar que um Homem pudesse ter esta expressão.
Passei o Natal debaixo dos cobertores, muito triste, mas muito quentinha. E não consigo deixar de pensar: como terá passado o Natal, aquele Homem?

Fez ontem um ano que escrevi este texto no “O Blog do Gustavo Felisberto”. Este homem, sem-abrigo de profissão abria, delicadamente, a porta às pessoas e esperava que as pessoas reconhecessem o gesto e o ajudassem.
Eu costumava tomar café numa pequena pastelaria quase em frente… quase em frente da Bella Roma, onde este homem abria a porta às pessoas.
Hoje fui ao Porto e sentei-me na mesma pequena pastelaria. Em frente vi que a Bella Roma tem agora portas automáticas.
Talvez as dores nas pernas daquele homem tenham melhorado…