aquilo que agarramos, agarra-nos também
Sentia os olhos pesados. A luz do monitor começava a exigir-lhe descanso. Não conseguia sair dali. Já tinha acabado todo o trabalho, mas continuava estático a olhar o ícone do cliente de mensagens instantâneas. Aquele ícone representava-a, agora. Agora, ela era apenas aquele ícone.
Sabia que aquele ícone não ía piscar, anunciando uma mensagem em tempo real. Ela não faria isso. E, no entanto, havia uma esperança, uma esperança sem esperança, dentro dele.
Era ainda uma esperança não assumida: qundo o ícone de um amigo piscou e ele leu “a trabalhar?”, respondeu que sim e não deu azo a mais conversa.
Mas para ele mesmo já não fingia. Não percorria os sites de notícias, nem os blogs, nem os motores de pesquisa, a fazer tempo… tempo de quê?
Não. Agora ele só olhava o ícone com o nome dela à frente.
Ela estava online e sem nenhuma mensagem. Apenas online.
Depois de tudo acontecer, só falava com ela através do cliente de mensagens instantâneas. Ultimamente, nem isso.
Não havia um pretexto suficientemente bom para iniciar uma conversa - e quereria ele arriscar-se a ter uma conversa com ela? Ah, se fosse para lhe sentir as palavras, uma palavra só que fosse, ele suportaria a dor depois.
Já não se lembrava porque tinham deixado de falar.
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Mentira. Lembrava-se perfeitamente. Tinham deixado de falar para deixarem de se magoar. Sim, tinha sido por isso.
Chegara um tempo em que a dor se tornara insuportável. No início, tudo tinha acontecido muito rapidamente, naturalmente rápido. Tinham morado no corpo um do outro durante muito tempo. Tanto tempo que conseguiam prever as reacções do corpo do outro com mais exactidão do que as do seus próprios.
Deu por si a pensar que talvez fosse por isso, por conhecer o corpo dela, melhor do que o seu próprio, que a dor, agora, se sentia tanto.
“É tão difícil conhecer algo, que acabamos por tornar nosso aquilo que conseguimos conhecer” - lembrava-se de ter lido isto algures e pensava agora que era bem capaz de ser verdade. Tinha-a tornado dele. Sentia-a tanto dele como se sentia dela.
“Custa-nos muito largar aquilo que conseguimos com muito esforço” - decididamente não conseguia controlar os flashes das frases que lera por aí…
E tinha sido assim. Tinha havido esforço de parte a parte. Ele tinha-se esforçado para se adaptar a ela e ela tinha feito um esforço para se adaptar a ele.
Porque quando a diferença vem temperada com amor… interrompeu-se…. amor?! Chamou-lhe amor agora, assim, sem pensar, pela primeira vez. Seria amor, O amor? Num segundo conseguiu sentir cada momento do passado, mas não se sentiu capaz de aferir do amor.
Os outros ícones do cliente de mensagens instantâneas começavam a piscar, o mesmo é dizer que começavam a exigir-lhe uma atenção, que ele não queria dar.
“Do you really want to logout?”
Yes
Quando ela acabou de escrever a palavra “Yes”, no pequeno caderno, alongou o olhar pelo espaço do café em volta e alguém virou para ela um bloco de desenho A3, onde ela se reconheceu no papel.
O chapéu rosa, anos 20, as mangas da shirt a saírem da camisola lilás, os lábios vermelhos, a caneta na mão e o olhar, o olhar naquele em quem tinha morado tanto tempo.