Vou à baixa quase sempre de fugida, quando preciso de fazer algo específico. Habitualmente não passeio na baixa de Coimbra. Habitualmente não passeio.
Mas ainda assim, ao passar pelo Santa Cruz, o café, não resisto a entrar.
Estou atrasada. Atrasadíssima. Mas não resisto e entro.
E assim que entro invade-me o cheiro e o burburinho daquele espaço, que é só daquele espaço e de mais nenhum outro.
“É só um café rápido” - digo para mim própria, justificando-me - “e preciso agora de me rodear de memórias, de boas memórias, de espaços acolhedores, seguros e o Santa Cruz tem tudo isso.”
Quando vivia no Porto e conseguia vir a Coimbra ao fim-de-semana costumava passear pela baixa ao sábado à tarde, pretexto para depois me enfiar na quietude do Santa Cruz.
O Santa Cruz recorda-me os livros que li aqui, as conversas com a Manela, os escritos, mas também me recorda um refúgio de uma semana insana, sem tempo para comer, nem para dormir, uma (tantas!) semana a chegar a casa de madrugada com o coração apertado: “Terei confirmado tudo? Terei visto todas as opções? Todos os ângulos? A peça sairá completa no jornal de amanhã? Terei assessores a telefonarem irritados para a redacção? Personagens a reclamar? Conseguirei defender o que escrevi?”
Depois de uma semana assim, era aqui que me refugiava.
É que aqui não havia assessores a colocarem o braço nos meus ombros e chamarem-me colega, nem havia presidentes de câmara a ameaçaremme com os seus advogados.
Não aqui, no Santa Cruz, não havia nada disso. Só o burburinho que faz dos cafés, cafés, e que não interfere com a quietude mansa de uma tarde de sábado.
E agora, volto a necessitar disso. Preciso desta madeira escura, ver para acreditar que estas paredes sobreviveram às décadas em que o homem dividiu o tempo, preciso que os meus olhos se encham com as cores garridas dos vitrais em frente.
E neste momento eu sou livre. Porque decido manter-me aqui apesar de estar atrasada. Atrasadíssima. E nem me importo. E é este não importar que me faz livre.
Porque consigo parar aqui o tempo.
Mais tarde voltarei ao rame-rame, saberei parar o tempo quando quiser, quando precisar.
E é isto que me faz livre.
Não ter nada nas mãos.
Se tiver de ir para outro continente amanhã, vou.
Se tiver de apanhar um comboio sem destino, apanho.
Gosto tanto do que faço, que, às vezes, penso que estou agarrada a isto. Que não conseguiria viver sem isto.
É por isso que preciso, às vezes, de parar o tempo, para perceber que nada importa e que se tiver de ir amanhã, irei, feliz e sem olhar para trás.
E a liberdade é isto.
Saber que conseguimos largar tudo.
O ódio começa agora a esvaír-se do corpo, ficará ainda uma sensação de corpo dorido, mas já podes voltar a deixar as pessoas aproximarem-se de ti.