o homem que deixou de fazer perguntas

às vezes, ficava muito quieto numa tentativa de se virar para si próprio, de se ver por dentro, de se analisar. tinha medos. sabia que tinha medos. parecia-lhe que tinha muitos medos. tantos medos e tão profundos que, por vezes, dava consigo a murmurar baixinho “terei medo de ter medo?” estava habituado a controlar as situações, o discurso e, até, o pensamento. coordenava tudo isto muito bem. por isso, quem o conhecia por fora nunca teria imaginado os medos que lhe íam por dentro. assim, media cada palavra que lhe era dirigida. procurava-lhes outros sentidos. introduzia-as noutros contextos e aferia-lhes a veracidade. quando se dirigia a outras pessoas, não fazia perguntas directas, contornava os assuntos, experimentava, numa espécie de estonteamento do discurso percorrido, questões que lhe permitissem tirar conclusões e avançar para a etapa seguinte. como um jogo de perguntas, que induzisse a curiosidade do outro e o fizesse entrar neste rodopio discursivo, que pudesse rememorar mais tarde, num misto de nostalgia. várias pessoas tinham sido alvo de tal experimentação e raras vezes se dera por satisfeito. poucas seguiam o seu raciocínio, quase nenhumas tinham paciência para levar o discurso até ao fim. boicotavam-no antes, com perguntas demasiado directas, intimidantemente inquisitivas e, pior do que tudo, perguntas retóricas, com um qualquer sentido moral. não se lembrava quantos tinham passado por este teste. chegara ao ponto de o fazer automaticamente.
um dia, cansou-se.
a partir de então limitou a curiosidade até ao ponto de não conseguir fazer perguntas.