A morte
Saiu à rua
Num dia assim
Naquele
Lugar sem nome
Pra qualquer fimUma
Gota rubra
sobre a calçada
CaiE um rio
De sangue
Dum
Peito aberto
SaiO vento
Que dá nas canas
Do canavialE a foice
Duma ceifeira
De PortugalE o som
Da bigorna
Como
Um clarim do céuVão dizendo
em toda a parte
O pintor morreuTeu sangue,
Pintor, reclama
Outra morte
IgualSó olho
Por olho e
Dente por dente
ValeÀ lei assassina
À morte
Que te matouTeu corpo
Pertence à terra
Que te abraçouAqui
Te afirmamos
Dente por dente
AssimQue um dia
Rirá melhor
Quem rirá
Por fimNa curva
Da estrada
Há covas
Feitas no chãoE em todas
Florirão rosas
Duma nação
José Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal, onde a urna foi depositada às 17h30 na sepultura 1606 do quadro 19. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília, Francisco Fanhais.