Come what may, this is happiness. I cannot wish for anything better. Now, for a few minutes, I can experience perfection. And I feel profoundly grateful to my life, which gives me so much.

Três mulheres esperam a morte de uma quarta, na casa onde passaram a infância [a infância é extraordinariamente importante em Bergman]. As mulheres vestem-se de branco e movem-se num espaço vermelho.
A morte e a rememoração do passado. A alma. Vermelha.

Anna. Tão pura a forma de sentir, que me é impossível de traduzir por palavras.
Cada vez que vejo um filme de Bergman fico fascinada com a forma que ele constrói para fazer passar o conteúdo.

Saíu, em Portugal, pela mão da Assírio & Alvim o argumento de três fimes de Bergman. Não o guião, mas o argumento, onde o realizador vai explicando o que quer fazer, como quer que a luz esteja, que cores quer que o cenário tenha, etc
Uma conversa que Bergman vai tendo connosco, onde nos vai explicando o que quer fazer: Caros amigos, vamos fazer um filme juntos, mas diferente dos que já realizámos.
Este volume incorpora o argumento dos filmes Lágrimas e Suspiros, Persona e Dependência.

E se começo com um excerto do filme, acabo com um excerto do livro:

(Não sei explicar o que vai seguir-se. O que é importante é que a situação deva parecer imediatamente natural, real, e contudo carregada de segredos e assim permanecer.)
Anna apercebe-se que a morta chorou, as lágrimas correram pelas suas faces e caíram na almofada branca de renda. Os olhos continuam bem fechados, mas as pálpebras fremem. Anna tenta de novo falar, mas não consegue. Senta-se à beira da cama e aguarda sem preocupação nem angústia. Pega nas mãos magras de Agnès, mas mantém-nas na mesma posição. Os lábios de Agnès começam a mover-se e depois a falar numa voz distante, alterada, difícil, profundamente exausta:
- Tens medo de mim, agora?, pergunta.
Anna abana a cabeça. Não, não tem medo.
- Vês bem que eu estou morta, diz Agnès.
Anna não pára de olhar para Agnès e continua a pegar-lhe nas mãos.
- Só que não consigo adormecer. Não sou capaz de vos deixar (Geme docemente e as lágrimas correm-lhe das pálpebras fechadas) Ninguém me pode ajudar?, lamenta-se. Estou tão fatigada.
- Isso não passa de um sonho, murmura Anna num primeiro impulso.
- Não, não é um sonho, responde Agnès, mortificada. Para vocês talves seja um sonho, mas não para mim.

Os que escolhem os filmes pelos óscares podem ficar descansados e vê-lo sem receio: ganhou um :P