Ela escolheu a mesa junto à janela, para se poder sentir próxima do chão. A mesa foi ficando completa: cinzeiro, chávena de café, copode água, maço de tabaco e caneta a deslizar no papel. As outras mesas atraíram pessoas e conversas.
Ele deve ter entrado no café, mas ela não consegue descrever como porque manteve sempre o olhar no papel branco que ía ficando manchado de caracteres pretos. É para ela impossível relatar os olhares que ele lançou em volta. Ela não sabe sequer se ele procurava alguém. Ela também não consegue dizer que voltas ele deu no café até chegar à mesa dela e sentar-se na cadeira vazia em frente.
Poucos minutos depois, trouxeram um café e um copo e água e a mesa ficou repleta de pares. Ficou estipulado, num silêncio de comum acordo, que partilhariam o cinzeiro.
Às vezes, olhavam a rua, às vezes olhavam o interior do café e às vezes olhavam-se a eles próprios. Nos olhos.
Se hoje lhes perguntarem o que cada um vestia ou de que cor eram os seus cabelos, não saberão responder. Quando se olhavam, olhavam-se nos olhos.
Ela ouvia a OST do 2046 e isto pareceu-lhe injusto. Por isso, retirou um dos phones, esticou o braço e colocou-o no ouvido dele, com o cuidado de não lhe tocar.
A mesa estava encostada à parede de madeira, à qual se encostava a perna de um e o pé de outro. Era este o outro ponto de contacto entre ele e ela. Se os ouvidos se enchiam de um Siboney, o corpo sentia as vibrações das notas de jazz da música ambiente através da madeira.
Olhavam-se em silêncio, como se se conhecessem há muito tempo e, ao mesmo tempo e ainda assim, precisassem um do outro.
Quando a OST do 2046 chegou ao fim, ela retirou, do ouvido dele, o phone, suavemente e com o cuidado de não lhe tocar, arrumou as coisas, levantou-se, atravessou o café em direcção à saída e nunca mais voltou.
É por isso que ela não sabe que ele voltou lá todas as noites à procura o silêncio dela.