ouço a tua voz à distância. preciso fazer um enorme esforço para te ouvir. preciso, sobretudo, de focar a minha atenção no que dizes porque intuo-o importante.
consigo apenas perceber que me dás instruções e que as repetes muitas vezes. sinto que apoias este corpo cansado e pesado, que teima em não obedecer às ordens que lhe dou para se manter direito.
não entendo o que me dizes, mas sinto uma irreprimível vontade de rir.
sinto-te o olhar e percebo no riso que por fim deixas sair do teu corpo que desistes. dou-te umas pancadinhas no braço para te sossegar de me veres assim. nunca te deve ter ocorrido que poderias ver-me assim.
vou palrando num tom arrastado, que tenho de repetir várias vezes porque pareces não conseguir perceber o que eu te digo. e é estranho que o não percebas porque só falo de ti.
agora devo estar a dar-te um conselho, que o tom é de conselho e tu vais acenando que sim, como quem sossega o outro. ouço o som ritmado de um comboio e lembro-me de achar estranho uma cadência destas dentro de um café.
é nesta altura que te levantas decidido e dizes que por hoje chega. tento levantar-me, mas não consigo. és tu quem me guia através do labirinto de pessoas, mesas e cadeiras que atulham o espaço.
sinto o ar frio da noite como uma bofetada e aconchego-me mais a ti. continuas a apoiar-me o corpo.
pelo caminho, vou perguntando pelo som do comboio. se o ouviste também. que eu não vi comboio nenhum, mas o som som era muito nítido. vais dizendo que sim, ao mesmo tempo que abres a porta. e eu pergunto se o viste e tu acenas, e enquanto vamos subindo as escadas vais dizendo que era azul e às vezes laranja e outras ainda castanho, como um buraco no tronco de uma árvore. deixo cair o corpo exaurido em cima da cama e insisto em saber agora das pessoas.
dizes-me que apenas um passageiro e alguns andróides com movimento retardados.
e é neste instante que te percebo o sorriso de quem inventa uma história para sossegar o outro.
porque sei que nunca estiveste em 2046. e por isso não podes ter regressado.