[aviso: o meu discurso encontra-se particularmente acintoso hoje, pelo que se desaconselha a leitura deste post a pessoas mais sensíveis]

Não me lembro se alguma vez utilizei este cumprimento. À luz desta distância parece-me que o devo ter feito uma ou outra vez porque recordo a sensação do ridículo, pretensioso até, de tal cumprimento.
Hoje considero-o corporativista, próprio de um grupo fechado que pretende continuar fechado.
O que é que alguém quer dizer com cumprimentos académicos que não consiga dizer com cumprimentos?
O cumprimentos académicos serve, quanto a mim, duas funções: ou se trata de um email (ou vários) para uma lista a avisar qualquer coisa mais ou menos oficial e remata-se com tal cumprimento, como quem diz, este mail é uma grande seca [vocábulo introduzido em Portugal pelo acutilante Eça], mas vocês vão desculpar que é em nome da academia; ou se trata de puro corporativismo: eu pertenço a este grupo, eu faço parte da academia e como tal tenho uma linguagem própria, transmitida de geração em geração, apanágio apenas daqueles que pertencem ao mesmo grupo do que eu. Enfim, a carneirada tem de se reconhecer de alguma forma.
Depois há os outros, aqueles que utilizam porque viram utilizar e lhes parece tal expressão senha de entrada ou regra instituída.
Mas quantos já se interrogaram sobre este cumprimento?
E isto das palavras rememora-me outra, que por sinal é muito boa de se dizer, mas que acaba por ter um significado execrável.
Muitas vezes se utiliza a expressão devemos agir com urbanidade. Quer isto dizer que devemos agir com delicadeza; civilidade; cortesia; afabilidade [in Priberam].
Mas atentemos na raíz da palavra: urbe; resquícios do séc XIX [e XX!] em que a cidade era sinónimo de civilidade e cortesia!
É que muitas vezes usamos as palavras e as expressões sem pensar no que elas guardam.