Carta a Mário de Sá-Carneiro
Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do “Marinheiro” ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no “Livro do Desassossego”. Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,
FERNANDO PESSOA
P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características…
Você acha-me razão, não é verdade?
(em 14 de Marco de 1916)
books, yesterday was dramatic, today is okApril 21, 2006 2:33 pm
7 Comments »
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Bem, esta foi das coisas mais maravilhosas que se me podia ter sido dada a ler hoje, ou - cheirame - noutro dia qualquer.
Adorei ler. Adoro Fernando Pessoa. Entendo perfeitamente todos aqueles doidos que já leram tudo dele e passam a vida inteira a estudá-lo, a si e a tudo o que lhe diz respeito. Porque ele era enorme, é sem dúvida das personalidades mais fascinantes com a qual tomei contacto, não pessoalmente, é natural, mas através da sua arte, que me sabe ainda melhor (que não sou muito bom no contacto directo com as pessoas, não sei bem porquê).
E depois porque também adoro o Sá-Carneiro.
De onde tiraste isto? Assim especificamente. Eu só tenho um livro de correspondência mas é de cartas do Mário para o Nando, e só tenho o 2º volume. Uma vergonha.
Este post encheu-me a alma. Fico convictamente contente.
Comment by jose — April 21, 2006 @ 10:36 pm
queria colocar alguma coisa sobre o que estava a sentir e sabia que o Pessoa devia ter algo que exprimisse o que eu queria dizer e não conseguia, assim procurei no google e encontrei este texto (já não me lembro porque palavras procurei)
no site indica esta referência e tem mais cartas:
Pessoa, Fernando, Livro do Desassossego por Bernardo Soares, recolha e
transcricão dos textos: Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha,
prefácio e organizacão: Jacinto Prado Coelho, Ática, Lisboa 1982,
pp. XLIII-XLVII
ainda não li o livro do desassossego e acho que nunca o vou ler porque estou sempre a lê-lo.. é o único livro que pego abro e leio onde abrir.. é ridículo, mas é sobretudo um prazer usá-lo desta forma…
não vi indicação de cartas lá, mas posso nunca o ter aberto nessa página e posso não ter uma edição que as contemple…
amanhã vou à biblioteca e procuro esta edição de 82 e logo te digo alguma coisa
Comment by Sofia — April 22, 2006 @ 12:29 am
curioso. quando li o post também achei que traduzia perfeitamente a forma como eu me estava a sentir. isto há coisas.
eu agora não tenho o livro do desassossego, como já te disse, mas olha que sou como tu. abro aquilo e leio. às vezes acontece abrir numa ágina, depois leio essa e as seguintes. o problema do livro do desassossego é que é tão imenso que não consigo ler muito seguido. uma página preenche-me a alma por um dia inteiro. curioso hein?
também não me lembro de ter lido lá cartas. mas hei-de ver.
Comment by jose — April 23, 2006 @ 2:46 pm
Só encontrei a edição da Assírio & Alvim e a da Visão. Ambas têm cartas, mas não esta. Suponho que só mesmo na edição de 82…
imenso é uma palavra muito boa para o descrever
Comment by Sofia — April 24, 2006 @ 7:41 am
a minha edição é a da assírio. tenho uma pancada pelos livros da assírio. acho que um livro deve ser tratado por uma editora como eles tratam os seus. como as verdadeiras obras de arte que são.
por estas e por outras é que ando a pensar ir para design de comunicação. se conseguisse melhorar, por exemplo, a forma como os livros nos são apresentados, já morreria feliz com a sensação de ter contribuído por algo. é claro que há coisas muito mais nobres do que desenhar um livro, mas de fazer essa eu já me sentia feliz. é que encontra-se com cada um que até mete medo. felizmente parece-me que começam a haver mais editoras que um livro bonito tem sempre mais valor, por mais fútil que pareça.
Comment by jose — April 24, 2006 @ 5:26 pm
é, eu também gosto muito dos livros da assírio. mas não é só pelo aspecto, é o papel e a letra cuidada e cheiram tão bem…
Comment by Sofia — April 24, 2006 @ 8:43 pm
é bem verdade minha cara. concordo a cem porcento com tigo. com tigo, isso mesmo.
Comment by jose — April 25, 2006 @ 8:17 pm