Escrevi o texto que se segue, na segunda vez que vi o 2046. Levei uma amiga e um amigo comigo. Comprei um bilhete a mais para uma pessoa que já sabia que não poderia ir. Fi-lo porque achei que essa pessoa tinha muitas questões sobre o amor, questões que também eu tinha, questões que não me foram respondidas depois de ver o 2046, mas que me sossegaram alguns demónios.
Enganei-me. A ela, não lhe disse nada, o filme. Quanto a mim, fui mal interpretada, de tal forma que cheguei a interrogar-me várias vezes se a outra pessoa não teria razão.
Não tinha. Descobri isso há pouco tempo, a partir de uma edição especial (em caixa metálica) do dvd do 2046, que encontrei na fnac (é o que eu digo, a fnac é boa é nos dvds de importação - e volto a frisar a vergonha da não existência de uma versão portuguesa com extras). São dois discos, um dos quais com entrevistas. Numa, Wong Kar Wai diz que o In the mood for love é uma história de amor, mas o 2046 é um filme sobre o amor. E, digo eu que, numa história de amor pode haver identificação, mas num filme sobre o conceito, há reflexão.
Saí da sala de cinema quando os créditos começaram e vesti o casaco. Os meus amigos foram dar comigo encostada à parede, em frente à porta, a fumar um cigarro e a apreciar os últimos sons e os créditos do filme.
O texto está escrito no masculino pela razão anterior e acho que já foi publicado em todas as casas (e talvez até já nesta) pelas quais passei. Quem tem acompanhado as mudanças sucessivas de casa, há-de reconhecê-lo ou até achar repetitivo. Reescrevo-o para meu próprio deleite, reescrevo-o para dar conta da edição especial e aproveito para roubar descaradamente uma foto (editada por um grande amigo). (clicar na foto para a ver em todo o seu esplendor)

“1 hora 10 horas 100 horas 10000 horas”

comprara um bilhete a mais. comprara-o para alguém que já sabia não poder ir. por isso, o lugar à sua direita, na sala de cinema, ficara vago durante toda a viagem para 2046. era o nº 14. talvez fosse melhor assim. se o objectivo era recuperar memórias perdidas, talvez fosse melhor ir sozinho. sentia a cabeça a latejar e o corpo exaurido. dormira muito mal na noite anterior. acordara muitas vezes e o pouco que dormira era um sono fragmentado, demasiado leve, hesitante. talvez fosse a iminência da viagem.
mas agora já não podia voltar atrás. era esta a última oportunidade para ir até 2046.

“I once fell in love with someone
After a while, she wasn’t there
I went to 2046
I thought she might be waiting for me there
But I couldn’t find her
I can’t stop wondering if she loved me or not
But I never found out”

procurá-la. recuperar as memórias perdidas. ocupar o tempo do outro ou deixar que o outro ocupasse o seu tempo. a viagem não foi muito tranquila. de quando em vez, sentia-se empurrado com violência contra as costas da cadeira. isto acontecia sempre que do outro lado da sala se erguia, no escuro, uma gargalhada. uma gargalhada sem sentido, despropositada, como se o seu dono estivesse numa viagem diferente. lembrava-se de ter pensado que o eu e o outro não vêem as coisas da mesma maneira e que, provavelmente, era isto que provocava os desencontros. isto e os segredos.

“Before…
…when people had secrets they didn’t want to share
…they’d climb a mountain
They’d find a tree and carve a hole in it
And whisper the secret into the hole
Then cover it over with mud
That way. nobody else would ever discover it”

durante a viagem viu um homem apaixonar-se por uma andróide com movimentos retardados. se lhe era dito algo que a fazia chorar, as lágrimas só brotariam no dia seguinte. o homem pediu à andróide que fossem embora juntos, mas ela nunca respondeu. o homem concluiu que a andróide não respondia, não por ter os movimentos retardados, mas porque amava outro homem. ele, sentado na cadeira, que via os movimentos, que surpreendia os olhares e os silêncios ficou a pensar que os movimentos retardados poderiam bem ser a causa da perda do amor. mas quando pensou isto, lembrou-se de alguém que lhe havia dito:

“recuso-me a acreditar que podemos perder alguém verdadeiramente importante só porque nos atrasamos”

e isso descansou-o.

a viagem acabou antes do seu término. os outros passageiros começaram a levantar-se e a sair da sala. ele vestiu o casaco, dirigiu-se à porta e acendeu um cigarro. enquanto esperava olhava ainda para dentro da sala e deixava os ouvidos enebriarem-se pela música. foi movimentando-se para trás, sem dar por isso, até colar o corpo à parede. foi nesse instante que compreendeu a fragilidade. foi nesse instante que percebeu porque as personagens se agarravam às paredes.

“no amor não há substitutos.”